sábado, 21 de novembro de 2009

Fumar mata

Eu sei que fumar mata. Mesmo que não estivesse escrito no rótulo, dá para supor que faz mal. Conheço gente que fuma há anos e um dia, por causa do tabaco, vai morrer. Pode ser aos 40, 70 ou 100.

Por isso nem hesitei quando li a advertência na caixa de charutos. Comprei-a, com a satisfação de ter às mãos um modelo cubano. De Havana. E se realmente o fumo matasse, o que seria do Fidel?

Os charutos chegaram a mim pela bagatela de 6,5€. Multiplique isso por 2,6 e terás uma média do preço em reais. A caixa tornou-se minha “menina dos olhos”. As cinco unidades vêm embaladas com finesse, individualmente, numa espécie de tubo de ensaio.

O fabrico, o cuidado, a preservação, o corte, o acompanhamento... tudo é importante num charuto. Fumá-lo é um ritual, tal qual na degustação do vinho e na apreciação do café. Não se traga. A fumaça deve percorrer a boca, para os sabores serem sentidos.

Amanhã, no aniversário de um amigo português, estreio a caixa. Ou como diria o título de um ótimo filme francês: é o primeiro dia do resto de minha vida.

domingo, 15 de novembro de 2009

Este acaso chamado destino


Não acredito em destino. Pelo menos de segunda a sábado. Domingo é diferente, então hoje quis crer. Ia sair do Centro Comercial das Amoreiras (durante este mês, volto a trabalhar no café) para o Centro Comercial Colombo.

Perdi o primeiro ônibus por questão de um minuto talvez; desatento, deixei o segundo passar após longa espera; e quando desisti de aguardar pelo terceiro e abandonei o ponto, eis que surge o automóvel.

A sucessão categórica de desastres fez-me valer da máxima: não era mesmo para eu ir. Enfrentei a chuva fina, andei alguns parcos quilômetros e tomei o metro em direção a casa. Mais fácil assim.

***

A noite de sábado foi de futebol. Portugal e Bósnia duelaram no estádio da Luz, por uma vaga no Mundial-2010. Foi o primeiro jogo, estive lá e deu 1-0 pros donos da casa.

A torcida lusa parecia num teatro, enquanto os bósnios entoavam gritos sempre animados, pulavam e vibravam com olhos rútilos e dentes cerrados. Deu saudade da festa nas arquibancadas brasileiras, do incentivo e das provocações.

Finda a partida, prometi que iria interagir com os visitantes. Queria trocar o cachecol – o meu de Portugal por um da Bósnia. Nem precisei sair da arena. Realizei o escambo com um senhor. Ele jogou o azul-amarelo, eu enviei o verde-vermelho.

Minha felicidade contagiou os bósnios. Parecia uma criança à frente do presente de Natal. Ficou marcado o rosto do homem desconhecido, a simplicidade do gesto de arremessar o objeto. Ele já deve ter passado por tantas coisas e agora carrego um pouco de sua história.

Onde comprou o cachecol? Quando? Como ganhou o dinheiro? Quantas vezes utilizou? Por que quis trocá-lo?

Talvez seja só coisa do destino, fazendo uma participação especial no sábado.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Impresente companhia

O homem tem várias obsessões. Um homem sem obsessão, sem uma reles e ínfima obsessão, assemelha-se a um daqueles chiuauas de madame: inofensivo, indefeso, patético.

A minha mais recente obsessão é pela voz feminina. Ando pra cima e pra baixo com os fones no ouvido, sempre a escutar um delicado timbre, uma canção sussurrada, um sopro de alma.

É exagero. Tudo o que tem muito adjetivo é exagero. O que se repete é exagero. E estou para exagerar, afinal. Nas músicas de uma Lisa Hannigan, uma Regina Spektor, uma Fiona Apple. Ouço-as e torno a ouvi-las.

Misturo-as a Adele, Lauryn Hill, Amy Winehouse, Amel Larrieux, Norah Jones, Madeleine Peyroux, Erykah Badhu, Sheryl Crow, Amy Macdonald, Joss Stone… O repertório nunca se encerra.

São as minhas impresentes companhias.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Nada é nosso


Todas as coisas que são nossas nunca são nossas de fato. A casa construída, o carro comprado, a geladeira, o fogão, o computador, o livro, as roupas. Nada. As sensações, as lembranças, o frio, a fome, a arte, o desejo, a mulher amada. São coisas nossas sem nos pertencerem – sem algum dia terem nos pertencido.

Hoje, escutando uma canção francesa, tive a lúcida noção que a liberdade nunca será alcançada. Porque essa é das imagens desprendidas que mais queremos deter. Como o amor. E se nada é meu das substâncias materiais, o que dirá das imateriais?

Isso é algo que deveria nos emancipar de nós mesmos, em vez de amedrontar – como acaba por fazer. Se pensarmos que tudo passa, e também passaremos, podemos simplesmente desligar-se desse mundo regado de incongruências. Uma menina, um dia, espantou-se por eu ignorar Deus.

– Quem não acredita Nele é capaz de qualquer coisa – disse ela.

E mal sabia que sou. Mas não de maldades, como ela supôs. Sou capaz de viver à busca de ávidas belezas e disseminar uma espécie de pureza terna, sem achar que possa ou deva realizar isso. Um egoísta generoso, indiferente às dores alheias porque elas também são coisas que não são nossas.

Se penso naquelas noites de solidão, a solidão apavora-me, não porque a posso ter de volta, mas porque nunca as terei como eram. A saudade nada mais é que assumir a impossibilidade da posse de um momento – um momento, na verdade, ausente de nós.

Quero vaguear nesse ínterim do achar e do ter. Porque se nada é nosso, nem esta vida efêmera, nada temos a desperdiçar.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Alguns dias fora...

Forçosamente, precisei estar ausente da internet por uns dias. É que deu problema na conexão em casa e fiquei restrito às visitas ao e-mail – e só. Até porque, do trabalho, não consigo ir muito além.

A boa nova é que voltei. Quer dizer, ainda estou a tentar imaginar a “boa nova” disso para vocês, mas tudo bem. Alguns poucos e rápidos fatos sucederam-se na semana. Depois de recuperar o sono da pungente Madrid, inventei de apanhar uma gripe.

Não é a A, é a S. A tal sazonal, como chama em Portugal a gripe que arrebata 79,23% da população nesta mudança brusca de clima (a percentagem ficou por minha conta). Também pudera: fui inventar de jogar frescobol na praia, debaixo de chuva.

Porém estou a me cuidar. Até porque iniciei uma fase “pauleira” na minha vida. Mesmo para acabar o ano com jeito. Até o dia 30 de dezembro devo ter uns ínfimos dias de folga dos trabalhos. É que resolvi ocupar meus fins de semana de outono/inverno com um outro emprego. Assim faço um pé-de-meia de jeito.

Lógico que depois vem o réveillon em Barcelona, algum trabalhinho mais, as férias merecidas no Brasil e, assim que pisar em solo português de novo, mais uma viagem: para Marraquexe (Marrocos), com uma ligeira passagem por Madrid.

Por que cada vez mais acho que viajar é a minha sina? O que me acalma.

sábado, 7 de novembro de 2009

Males que vêm pra bem

A frase está desgastada, mas não custa reforçá-la: “Há males que vêm pra bem”. Ou ainda: existem acontecimentos muito além de coincidências. O fato de a reserva do hostel em Madrid ter sido feita no dia errado levou-nos a uma pensão superagradável, limpa e tranquila – de um senhor espanhol casado com uma carioca.

Também teve a visita à Praça de Touros, segunda maior arena do mundo, convertida numa incursão etílica por conta da Feira da Cerveja que rolava no local. Com direito a uma disputa (eu e a Ju contra um casal) para ver quem serrava um tronco mais rápido. Vencemos e arrematamos um boné da cerveja bávara Paulaner (ela queria um chapéu da Guiness...).

E quando resolvemos tirar foto com o Homem-Aranha na Plaza Mayor? Detalhe que o super-herói desfilava uma barriga de causar inveja ao Homer Simpson. Ê pá, o gajo ainda era português! Simpatitíssimo e divertido. Como foi divertido passar por diversos artistas de rua, com infinitas aptidões criativas.

Não encontramos as boates sugeridas, mas e daí? A noite barata e louca passou numa disco chamada Cibeles. As pessoas fantasiadas no Halloween interagiam, brincavam umas com as outras, riam. E visitei o Museu do Prado e o estádio Santiago Bernabéu; a Plaza del Oriente (que lugar!) e o Mercado de San Miguel (que lugar!).

Madrid ainda está em mim, como uma tatuagem na memória. Foi um fim de semana apenas, porém intenso. Com amigos que cada vez tornam-se mais importantes para fazer dos momentos que tenho vivido inesquecíveis. Pois como escrevi no início: “Há males que vêm pra bem”.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

La movida madrileña


Uma cidade é muito mais que paisagem. É muito maior que seus edifícios e monumentos; que os pontos turísticos, as zonas históricas; os parques, jardins, becos e ruas. Uma cidade é como nós: tem personalidade, constrói um caráter, ganha uma alma.

Por isso Madrid é bela na forma, mas é especial no conteúdo. A capital espanhola esbanja vitalidade estética ao mesmo tempo em que abraça a simpatia com um jeito despretensioso de conduzir a rotina. Como numa peça sem trama.

Meu encanto foi imediato. Sair do subterrâneo na Gran Vía às 10h da manhã e perceber o mundo que se abre teve peso – e importância sublime. Depois da meia-noite o deslumbre foi igual. Madrid não dorme e, acordada, faz festa. Seja no meio da rua, seja numa discoteca.

O bom humor é mesmo algo que se (re)aprende na Espanha. E como nos energiza! Embarquei de volta a Lisboa no Aeroporto de Barajas com a certeza de esse enredo merengue foi apenas o prólogo.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Eu não sei

Eu não sei. Juro para vocês: eu não sei. Perguntam se volto, quando volto, o que farei ao voltar. E bagunça-me a ordem saber que em algum instante, por imediatio que seja, terei de decidir essas coisas.

Porque sinceramente, com toda a franqueza e serenidade que alguém franco e sereno possa exprimir-se, eu não sei. Já pensei em viver a vida que tem de ser vivida: emprego, casa, família. Sem tirar nem pôr.

Mas cada vez que foco no convencional, despedaço a convicção. Já pensei em adiar o futuro e fintar o destino. Depois que a gente voa a primeira, a segunda, a terceira vez, não há mais ninho, nenhum lugar é lar. E me questiono se não fujo das responsabilidades?

A resposta já devem saber que eu não sei. Vejo meus amigos daqui seguirem suas trajetórias... aqui. Vejo meus amigos de lá valorizarem os seus traçados. Tento entender em qual me identifico mais. Onde me encaixo. A qual mundo faço parte.

Todas essas dúvidas furtam o dia, a noite, o intervalo, a ressaca, a solidão, a euforia, o presente. E pego-me a pensar no amanhã quando o hoje ainda está a iniciar. Porém o que faço? O que resolvo? Eu não sei.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Viver tudo em romance

"O meu ideal seria viver tudo em romance, repousando na vida - ler as minhas emoções, viver o meu desprezo delas. Para quem tenha a imaginação à flor da pele, as aventuras de um protagonista de romance são emoção própria bastante, e mais, pois que são dele e nossas. Não há grande aventura como ter amado Lady Macbeth, com amor verdadeiro e direto; que tem que fazer que[m] assim amou senão, por descanso, não amar nesta vida ninguém?" (Fernando Pessoa)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O silêncio da nuvem


“Tudo está em silêncio como uma nuvem passando diante do sol.” Acho que foi em Viajante Solitário, de Jack Kerouac, que li isso. E agora faço essa relação com o meu momento. Tudo está em silêncio, os ponteiros dão voltas e nem ao menos dou conta de sua trajetória.

Parece, sei lá, que espero algo. Algo que nunca está onde sempre procuro. Ou sempre está onde nunca procuro. Vou gastando os minutos que restam para o apito final, como se empatasse uma partida que já sabia perdida.

Tenho poemas na manga que dizem tudo de mim. Mas nunca são (ou serão) publicados. Tenho tempos de ápice artístico, tempos de déficit estilístico. Fracasso na tentativa de ser entendido e vou seguindo por estradas inóspitas do desconhecimento fluido. Comunico-me para confundir-me.

E desses fragmentos que brotam sem coerência, vou coexistindo com a loucura. Amo tanto amar que descuido-me da realidade do sentimento – e passo a venerar a principal armadilha do amor: a ilusão. Vou viver escondido até encontrar alguém que saiba domar este animal selvagem dentro de mim.